R$ 125 mil em 72 horas x ameaças e ‘cancelamentos’: os bastidores das vaquinhas de alunos de medicina para bancar curso

R$ 125 mil em 72 horas x ameaças e ‘cancelamentos’: os bastidores das vaquinhas de alunos de medicina para bancar curso

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Desespero, corrente do bem e ameaças: os bastidores das vaquinhas para alunos de medicina

“Eu pensei bastante antes de começar essa vaquinha, porque não queria ficar pedindo dinheiro para as pessoas. Vergonha… mas não sobrou nenhuma outra opção.”

Esse é um trecho do apelo que o estudante de medicina Leonardo Reis, de Porto Alegre, postou nas redes sociais, em um vídeo pouco produzido, basicamente sem edição, que passou de 8 milhões de visualizações no TikTok.

Nas redes sociais, há dezenas de vídeos em que alunos de medicina divulgam vaquinhas e falam do desespero de não terem mais dinheiro para a reta final da faculdade.

O rumo que essa exposição da própria história de vida pode tomar, no entanto, é imprevisível. Nos bastidores, como você verá nesta reportagem, ocorrem:

  • correntes do bem e mensagens de apoio;
  • perda de privacidade;
  • ameaças e “cancelamento”;
  • caça a contradições nas escolhas de vida do aluno;
  • sensação de vigilância constante;
  • autocobrança.

Correntes do bem e mensagens de apoio

Por que tanta gente decide ajudar? Para Leonardo Reis, a causa de “quero me formar em medicina e falta pouco” é vista com sensibilidade. Em geral, as pessoas associam essa carreira a uma oportunidade válida de ascensão social.

Quando veem que um jovem está prestes a alcançar esse objetivo, querem incentivá-lo e fazem um PIX — mesmo que de R$ 5 ou R$ 10.

No caso de Léo, a mobilização começou entre pessoas próximas: familiares, colegas, professores e conhecidos da região de Porto Alegre ajudaram a levantar cerca de R$ 20 mil antes mesmo de o vídeo dele viralizar.

Depois que o apelo ganhou força no TikTok, a arrecadação disparou. Em cerca de 72 horas, somando vaquinha e depósitos feitos diretamente em sua conta, ele já havia conseguido quase R$ 120 mil — valor suficiente para dar uma entrada de R$ 80 mil e garantir a rematrícula no último ano de medicina.

Perda de privacidade

Para convencer o público sobre a necessidade de ajuda, inevitavelmente o estudante expõe algum detalhe de sua vida pessoal: crises financeiras na família, dívidas assumidas, momentos de desespero e de fragilidade…

São histórias que passam a ser interpretadas e potencialmente julgadas por milhares de pessoas.

Exemplo: internautas passaram a vasculhar publicações antigas de Thaís, em busca de evidências de que ela não precisaria de ajuda financeira.

“O pessoal falava: ‘ela foi pra Disney em 2018’”, relata a jovem.

A viagem, segundo ela, aconteceu antes de a faculdade começar. “Eu nem pensava em fazer medicina. Fiz o vestibular em 2019 e comecei em 2020.”

Ameaças e “cancelamento”

Thaís Ferreira, de 34 anos, por exemplo, teve seu passado recente revirado por quem não acreditou que ela realmente necessitaria de doações para se formar.

Ela já era nutricionista e queria fazer uma segunda graduação, em medicina. Para isso, contou com a ajuda da mãe (que esgotou a própria reserva financeira), da tia e dos avós.

Nos comentários, a relação dela com a família foi objeto de discussão e de críticas.

“Estar na internet é se colocar num espaço em que se está sujeito ao cancelamento. É um cálculo pessoal: tem pessoas que vão tolerar críticas, outras que não têm estofo emocional para aguentar”, afirma o professor de Direito Filipe Medon, da FGV-Rio.

“A palavra de ordem sempre é: pense antes de postar, pois o direito ao esquecimento [para quem se arrepende] não é exercido na prática”, diz ele, que também é pesquisador da “cultura do cancelamento”.


Fonte: g1 > Educação




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