Introdução
Como aprendemos a andar? Além de todas as questões motoras envolvidas, há um pressuposto básico para que a criança dê os primeiros passos: confiança. Ela precisa ter a certeza de que alguém estará por perto para segurá-la ou confortá-la se ela se machucar. É uma interação simples, mas essencial para o desenvolvimento infantil.
Perda de Conexões
E são exatamente essas conexões do dia a dia que estão se perdendo. Adultos esquecem que são mais interessantes (e que têm muito mais a ensinar) para bebês e crianças do que as telas; estresse e cansaço acumulados prejudicam as interações pessoais e reduzem a qualidade delas; professores de educação infantil sentem-se desmotivados para se dedicar a essas conexões, diante de salários baixos, sobrecarga de trabalho e falta de reconhecimento.
Investimentos Públicos
Por isso, Junlei Li, professor da Harvard Graduate School of Education, defende que, para o desenvolvimento de uma sociedade saudável, o foco dos investimentos públicos esteja em políticas que favoreçam as relações — especialmente aquelas que envolvem a primeira infância.
Desenvolvimento Infantil
Dos 0 aos 6 anos, o cérebro forma até 1 milhão de novas conexões neurais por segundo. É a fase de maior plasticidade da vida. Além de segurança básica, saúde e alimentação, é a interação que realmente vai ajudar as crianças a se desenvolverem.
Interções de Qualidade
Que tipo de interação deve acontecer — e por que o celular atrapalha tanto? O professor Li lista quatro características essenciais para uma interação de qualidade:
1. Conexão
Percepção de quão sintonizadas as pessoas estão durante uma interação. São três estados principais: distanciamento ou hostilidade, desencontro emocional e Modo Z (o ideal): sintonização mútua e presença compartilhada.
Exemplo Prático: Uma criança tenta mostrar um desenho para o pai. No Modo Z (Conexão): O pai abaixa, olha nos olhos da criança e comenta sobre as cores. Há uma “faísca” de reconhecimento mútuo.
O impacto do celular: O pai olha o desenho por cima do aparelho, balança a cabeça e diz “legal” sem desviar os olhos da tela. A criança sente que, embora o pai esteja fisicamente presente, ele está emocionalmente ausente. Isso gera uma ruptura da conexão.
2. Reciprocidade
Equilíbrio de papéis e trocas entre os participantes. Ela flutua entre diferentes níveis de engajamento: unilateralidade e Parceria Equilibrada (ideal): Uma troca recíproca tão fluida que se torna difícil distinguir quem lidera e quem segue.
Exemplo Prático: Uma professora e um aluno montam um quebra-cabeça. No Modo Z (Parceria): Eles alternam as peças; um espera a vez do outro de forma fluida.
O impacto do celular: A professora interrompe a atividade para responder uma mensagem rápida. A criança para de tentar colaborar e passa apenas a esperar (conformidade) ou desiste da atividade por frustração (resistência).
3. Inclusão
Observação ativa de quem participa das atividades, com atenção especial aos “menores do grupo” ou àqueles menos propensos ao engajamento.
Exemplo Prático: Na hora do recreio ou de uma brincadeira entre os primos, uma criança está mais tímida, sozinha em um canto.
No Modo Z (Inclusão): O adulto percebe esse isolamento e convida essa criança para ajudar a organizar o jogo, integrando-a aos colegas.
O impacto do celular: Se já for dado um celular ou um tablet para quem está sozinho, as chances de esse aluno participar do grupo diminuem. A tela capta toda a atenção.
4. Oportunidade de Crescimento
Equilíbrio entre desafio e apoio, auxiliando no desenvolvimento de competências “acadêmicas” e socioemocionais.
O estímulo, às vezes, precisa ir além da zona de conforto: é como se o adulto oferecesse um andaime para a criança subir a um patamar mais alto. Esse suporte pode ser retirado conforme a autonomia cresce.
Exemplo Prático: Uma criança aprendendo a amarrar o tênis.
No Modo Z (Crescimento): O adulto observa a dificuldade e oferece apenas uma dica (“tente fazer a orelhinha do coelho com o cadarço”), permitindo que a criança consiga cumprir a tarefa sozinha.
O impacto do celular: Para “ganhar tempo” e voltar logo para o celular, o adulto faz a tarefa pela criança (retirando o desafio) ou ignora o pedido de ajuda (deixando a tarefa inalcançável). A oportunidade de crescimento é desperdiçada.
Fonte: g1 > Educação
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